| |
As Tragédias Rentáveis e as Não-Rentáveis
Sim, sou velho. Lembro-me da década de 80. O então Governador de Santa Catarina, Esperidião Amin, aparecia em todas as emissoras de televisão, informando os números e providências tomadas na catástrofe causada pela enchente que dizimou o Estado, em proporções muito parecidas com as que vemos nestes tristes dias. A região é vítima de enchentes regularmente, e, vez por outra, acabam passando das proporções esperadas.
Impossível não se sensibilizar, a situação tira-nos de nossos mundinhos egocêntricos, ao menos por uns momentos. Crescem as campanhas. Medicamentos, alimentos, roupas, dinheiro, o que for possível, para a promoção pessoal do organizador, para a audiência crescer, ou por puro altruísmo, não é impossível, mas todos com o resultado prático do assistencialismo necessário. Não condeno nenhum.
Mesmo com o envio dos âncoras Bonner, Datena, Roberto Cabrini, Ana Maria Braga, na estúpida briga pela audiência, que não é esquecida nem nestes momentos, sensibilizam sim, e fazem-nos até esquecer que a miséria está bem aqui ao nosso lado, na nossa rua, no nosso bairro, e sempre esteve, sem sequer uma enchente.
Por que será que não existe uma campanha permanente, toda essa sensibilização em relação a tanta miséria que temos e convivemos tão de perto, desde sempre? Será que não é interessante, será que não há retorno financeiro para a televisão?
Naquele farol, todos os dias, aquela criança já é quase um adolescente, e só deixou de comparecer ao seu “local de trabalho” quando tirou alguns dias de férias na Febem. Não compensa fazer uma campanha para isso? Não compensa levantar uma campanha para acabar com a miséria nordestina, bem administrada pelos ainda coronéis? Será que a escravidão indireta dos senhores das lavouras, que paga o trabalho, mas cobra o alimento e a estadia do lavrador e sua família não sensibiliza a ponto de se criar uma campanha?
É isso que me irrita. Claro que um acontecimento catastrófico desses deve ser salientado e auxiliado, com os meios possíveis e impossíveis, assim como todos os outros temas que assolam nosso país.
Mas, fazer-se o que? O BNDES tem dinheiro para emprestar aos nossos irmãos latino-americanos, que resolveram entrar na onda do calote (chegam a mais de 3 bilhões de dólares). E se eu entendo bem, o Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico-Social, como o nome me faz pensar, não estaria fazendo um investimento muito mais rentável se financiasse a eliminação da miséria em nossas próprias terras, antes de proporcionar ajudas aos nossos vizinhos?
Ou isso ou estou doido, o que não seria nenhuma novidade...
Marcos Claudino, 39 anos, rabugento e embusteiro.
Escrito por Marcoscl_SP às 10h53
[]
[envie esta mensagem]
[link]
|
|