Opiniões, Idéias e Viagens Mentais
   O Dinheiro do Futuro

        No princípio era o verbo. Do verbo veio a luz, da luz veio o homem, e aí as coisas escureceram um pouco.

        Aquele macaquinho resolveu as coisas rapidamente, e criou formas de sobreviver. Sobrevivência garantida, era hora de economizar, para os tempos difíceis, para as grandes nevascas, para as grandes secas, para os terremotos, maremotos, dilúvios e catástrofes.

        Com as sobras das reservas, veio o lastro. O ouro, a prata, os diamantes de um país passaram a ter sua representatividade cunhada em moedas, que, a princípio, adquiriam os bens.

        Pronto, o mundo dito civilizado movia-se como um relógio. Ter bens significava ter moedas, que compravam ou davam a impressão que compravam tudo e todos.

        Até que um dia um sujeito resolveu padronizar as cotações dos bens, dividindo as empresas em ações, que poderiam ser divididas entre os sócios (acionistas). De acordo com a quantidade de ações que alguém detinha em seu poder, maior ou menor força tinham suas decisões nos rumos desta empresa.

        Veio então o filho desse sujeito e descobriu que poderia dividir ainda mais a quantidade dessas ações, disponibilizando-as ao público interessado em adquiri-las. Com este aporte de capital, estas mesmas empresas cresceram, tomando proporções de alcance mundial, fazendo com que os detentores destas ações aumentasse muito seu patrimônio.

        E então veio o futuro. Sim, o futuro passou a determinar o valor dessas ações no presente. Sim, porque o passado não tinha a menor importância, não determinava nada, e história não tem nada a ver com isso. A partir daí, qualquer rumor futuro, qualquer fofoca corporativa, qualquer fator que trouxesse uma expectativa negativa ou positiva do futuro desta empresa determinava se suas ações, no presente, valessem mais ou menos.

        Era uma vez um país. Um país que praticamente inventou todo este conceito. Este país adquiriu, através da história, um porte e importância gigantesca no âmbito da economia mundial. Passou a vender e comprar de tudo e todos, tendo inclusive sua moeda como referência econômica mundial. Tudo ia bem, até que o setor imobiliário deste país resolveu diferenciar suas estratégias de vendas, abrindo prazos e condições jamais vistas ao consumidor. As vendas multiplicavam-se a ritmos alucinantes, gerando valorização das ações das respectivas empresas do setor imobiliário.

        Acontece que uma crise chegou, não inicialmente do setor imobiliário, mas de outros setores econômicos desse país, como indústria e comércio. E os níveis de inadimplência do setor imobiliário sentiram-se de imediato. Resultado: As ações destas empresas começaram a baixar repentinamente. E quem é que bancava todo o investimento do setor? Justamente como aqui, as instituições financeiras. Não seria difícil prever que a quebra de uma única destas instituições acionaria um alarme que, tardiamente, indicaria ao mundo  um desequilíbrio econômico de gigantescas proporções. Ruína à vista.

        Mas veio o Congresso deste país e resolveu intervir, temendo as conseqüências deste desarme de capital imediato. Grana, simplesmente grana viva, no presente, de imediato, esta era a solução.

        E aqui paramos nossa narrativa, pois o resto da história ainda será contado, por mim ou por qualquer sobrevivente da montanha russa financeira que o mundo capitalista embrenhou-se, sem perspectiva de saída, ao menos sem causar muito estrago.

        Porque, não sei se já percebemos, mas o nosso futuro próximo depende de dinheiro inexistente. Esse dinheiro inexistente nada mais é do que a expectativa dele existir em maior ou menor quantidade.

        Ao final desta saga, qualquer economista poderia explicar melhor porque estamos fadados a, daqui a pouco tempo, estarmos comendo ouro, tomando banho com diamantes, e vestindo dólares, já que os bens propriamente ditos não mais existirão...

 

        Marcos Claudino, profissional de RH, 39 anos, preocupado apenas com a semana que vem, a prestação da casa, e o carinho dos familiares.



Escrito por Marcoscl_SP às 12h27
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